Monocromia Secreta de um Final de Ano

Possivelmente não nos saberemos mais, não sei por onde andas, não sabes de mim. Há tempos arrebentaram-se todos os vínculos. E deixei mesmo que, em tua viagem de volta, fosses pensando que eu era má, horrível, fútil, tola, pequena, uma vida menor, sem importância. 

Não importa mesmo o tamanho ou a perfeição da imagem quando tudo
se transforma em ausência.

Também pintei teu retrato à saída. Monocromia deformada. Tornei-te feio à minha observação, desenhando-te egoísta, insensível, fraco, tolo, mau, pífio. Fui retirando tuas cores. Assim pude me iludir de não ter perdido uma  grande obra. E ainda me vestir da idéia pseudo-confortável da libertação.

Mas esta droga de final de ano costuma levar involuntariamente à retrospectiva de todas as histórias, localizando personagens de estertores, aqueles de força existencial suficiente para deixarem inscrita uma cicatriz risonha, vazia ou tristonha na alma. 

Essa mania de revisitar o passado nem sempre explica. Dependendo da estação, pode tornar tudo mais confuso, por falta de tintas. Não é mesmo uma boa idéia jogar xadrez com o tempo. Até porque  o xeque-mate é sempre dele no final.

Deixemos o tempo... Encerremos as visitas.

Libertos hoje de todos os fios que nos prenderam a um  confuso enleio, fico com a tranquilidade da tua imagem longínqua, agora em tons de cinza. Os avessos são os avessos. Não mais saberás de mim. De como vi os dias azuis em que começamos a pintar a quatro mãos e dois corações a tela de cores vivas, que ficou inacabada. Foi a última vez que fui intensa, ou quase isso, se é que esses issos têm nome.

E agora, ao recompor-me, ajeitar o cabelo, calçar a sandália de salto,retocar o batom, preparar-me para sair, agora, preciso atribuir-te o mais profundo desprezo enquanto ouço Djavan:

"Só eu sei as esquinas por que passei; só eu sei,só eu sei."

Esqueço que não vou te esquecer e prossigo por caminhos outros que não te conhecem.

Eu queria apenas dizer: Feliz Ano Novo!

Já disse. Se ouviste ou não, já não importa.

Há tempos arrebentaram-se todos os vínculos. Menos estes, invisíveis, indizíveis.